A Bienal do Livro 2026: Valeu a pena?
Uma noite na Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026 — quadrinhos de mitos brasileiros, saraus de resistência, livros costurados à mão, afrofuturismo, romantasy e o resto de histórias que a gente não esperava encontrar.
09 de setembro de 2026 • São Paulo
"Quem não lê, aos 70 anos terá vivido uma única vida: a sua própria. Quem lê terá vivido 5.000 anos." — Umberto Eco
Tem dias que você sai de casa planejando uma coisa e descobre outra completamente diferente. Esse foi um deles.
No dia 9 de setembro, eu e Adriel nos propusemos a uma experiência que, no papel, soava simples: visitar a Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026. Mas entre a saída de casa e o retorno, descobrimos que nem sempre o que buscamos é o que realmente precisávamos encontrar.
A Bienal Como Ecossistema Vivo
A Bienal não é apenas um evento. É um ecossistema. E como todo ecossistema, ela funciona por conexões que você não vê à primeira vista. Há uma lógica por trás de cada escolha: imagine uma teia de aranha. A Bienal é a teia, e cada fio de seda que a aranha usa para envolver sua presa é como os leitores, escritores, editoras e todo o mercado editorial sendo conectados por essa mesma teia.
Então, se você ama leitura como eu, ou mesmo se importa com esse ecossistema, ou sonha em lançar um livro algum dia, venha conhecer minha visão sobre a Bienal! (garanto que ela não é tão mórbida quanto essa introdução)
Quando as Histórias Em Quadrinhos Falam Com Lendas Antigas
Meu primeiro encontro real foi com o Estúdio Ton. Caso você ainda não conheça, é uma editora independente que foca na produção de histórias em quadrinhos de autores brasileiros.
Conversei com os dois escritores deles. Um dos quadrinhos mergulha nos mitos brasileiros, aqueles que a gente cresceu ouvindo como segredos sussurados: Curupira, Iara, essas figuras que habitam nossa imaginação coletiva como verdades guardadas. O outro é Homem Chiclete, que flui entre o absurdo e o poético. Ambos fazem o que de bom a arte faz: contam histórias que precisam ser contadas.

O Sarau Como Ato de Resistência Criativa
Num outro canto, descobri o Sarau do Manoélio, que existe desde 2023 como um gesto de quem entendeu que poesia não morre, apenas procura novos espaços. Quem me recebeu foi o Carlos, e ele contou a história com aquela dedicação de quem realmente acredita no que faz.
Criaram um espaço onde poetas se reúnem. E tem um livro chamado "Uma Poesia para Raul", basicamente uma coletânea de poemas de vários autores que frequentam o sarau. É uma pequena editora que está fazendo livros de gente que tem histórias para contar, e isso é incrível.

Na minha percepção, de uma pessoa com nível elevado de curiosidade, não tem coisa melhor que literalmente ler o que se passa na mente de outra pessoa.
Tem algo revolucionário nisso (e talvez eu esteja atrasada para perceber?). É sobre dar espaço para vozes que existem, mas que a indústria tradicional não alcança. É sobre reconhecer que a literatura continua viva enquanto houver gente disposta a sussurrar para outras pessoas no escuro.
Quando o Livro Vira Escultura: A Filosofia Das Mãos
Depois chegou a Editora Arpillera. E aí as coisas ficam diferentes.
Cada livro deles é costurado à mão. Não é romantismo barato, é escolha deliberada. As páginas são diferentes umas das outras, cada detalhe foi pensado. Recortes, colagens, a costura da lombada, tudo transmite um sentimento que corresponde ao conteúdo do livro.
Tem uma filosofia nisso que me marcou: a ideia de que o livro não é apenas linguagem, mas experiência tátil. Que você não lê apenas com os olhos, mas com as mãos também.
Pedi para a editora que me atendeu descrever a essência da editora em uma única palavra, e ela disse: "sensorial".
Meu preferido? Um livro chamado "Minhas Águas". A arte é lindíssima, parece uma aquarela, com um recorte muito bonito. Mas o que realmente me pegou foi a lombada: a costura é em formato de onda. Você está segurando um livro que é água.

Isso é além de design. É intencionalidade transformada em tato. É a prova de que criatividade verdadeira não delega nada ao acaso.
O Futuro do Afrofuturismo
A Kitembo é uma editora totalmente "pra frente" que produz e publica literatura negra, em muitos gêneros.
Gente, simplesmente sensacional. O livro em destaque, "Ancestral", é do gênero afrofuturismo (para quem ainda não conhece: movimento que une ficção científica, tecnologia, fantasia e ancestralidade para colocar as populações negras como protagonistas de seus próprios futuros, um grande exemplo? Pantera Negra!).

A história se inspira em diversas culturas religiosas, algo que me agrada muito, especialmente por ver como os autores conseguem transformar algo que já existe em um universo novo. O livro já tem uma segunda edição, que ainda não adquiri, mas confesso que vou providenciar logo, preciso das respostas para as perguntas que ainda pairam na minha mente.
Em geral, adorei conhecer o stand e as obras. Confesso que era um gênero que eu não acompanhava, e foi uma surpresa muito boa encontrar essa editora.
O Stand Que Entendeu Que Cinema Também É Leitura
Se tivesse que escolher o stand mais bonito da Bienal (e escolho), seria o da Editora Rocco.
Eles criaram um espaço que parecia um cinema antigo, daqueles teatros de verdade, sabe? E faz sentido: muitos dos livros que viraram filmes famosos são dessa editora.
Será que tem algo cinematográfico em como eles entendem a narrativa? Em como sabem que uma boa história funciona tanto na página quanto na tela?
(fico devendo a foto, mas tem ela no vídeo!)
A Revolução Silenciosa Do Romantasy
Além dos inúmeros lançamentos, chegamos nos famosos livros de romantasy, que para minha surpresa (ou nem tanto, já que dados de fontes como a FNAC indicam que em 2023 o gênero bateu um recorde de vendas estimado em 454 milhões de dólares, e em 2024 chegou a 610 milhões), descobri um universo que eu não conhecia profundamente.
Se você nunca ouviu falar em romantasy, deixa eu apresentar assim: é um abraço de "mulher para mulher" traduzido em páginas. Meio ficção, meio romance, meio fantasioso, meio sensual. Aliás, "sensual" é até pejorativo quando a gente coloca os adjetivos necessários para este gênero. É vulnerabilidade encontrando poder. É magia servindo como metáfora para liberdade.
Mas não pense que romantasy é apenas um romance bobo. Recentemente me dei a honra de conhecer esses universos e fui captada para um "esquema de pirâmide", como brincam as fãs da autora Sarah J. Maas. Sim, exatamente esse tipo de vício.
Suas histórias cativam porque os universos são bem construídos, as tramas respiram inteligência política e os personagens dão vontade de guardar num potinho. Tem profundidade. Tem estrutura. Tem aquele tipo de escrita que te faz passar a madrugada acordado porque você precisa saber o que acontece.
Dou destaque para "Trono de Vidro", uma série que conseguiu me vencer com plot twists que realmente me pegaram.

Mas fica o alerta importante: essa pessoa (eu) não recomendo aprofundar no universo. É nítido como sua escrita muda depois que ela descobriu que livros com "hot" podem dar muito mais dinheiro. Hoje, livros que antes eram pura trama, superação de traumas e fantasia política, conseguem ser apenas um pouco mais do que "hot". Um grande exemplo é a série ACOTAR, que teve um rebaixamento notável a partir do quarto livro.
Enfim, o gênero é altamente recomendado para quem quer ler algo diferente e sair do tradicional. É fortemente não recomendado apenas para quem odeia elfos e criaturas místicas.
Histórias Que Viajam
Meu último lançamento da noite foi "A História de Taipei", de R.F. Kuang. Colocaram na minha mão e eu já sabia que tinha que levar. Tem aquele tipo de livro que você segura e já sente que vai te levar para outro lugar. R.F. Kuang sabe contar histórias que respiram contexto.

Livro da Barbie? SIM! Temos.
E foi lá que encontrei "Barbie: Mundo Dos Sonhos", de Alex Aster. Nunca tinha ouvido falar. Mas o livro é lindíssimo. Aquele tipo de surpresa que só acontece quando você está aberto a descobrir. Ps.: esse livro está lindíssimo!!!

Despedida
Se você está pensando em ir para a próxima Bienal, ou para qualquer evento desses, vá sem expectativas pré-fabricadas. Não faça uma lista. Deixe a curiosidade te guiar. (ou faça um roteiro, afinal, a vida é sua mesmo…)
Os melhores momentos são sempre aqueles que você não previu. E talvez seja justamente isso que a gente precisa lembrar: nem tudo que importa cabe em um plano.
Tem histórias esperando por você lá. Histórias que ninguém ainda contou pra você. Histórias que você nem sabia que precisava ouvir.